eu compartilho: a história de talita berribilli

17 nov

[talita criança]

Recebi um convite da Miki para contar minha estória de bullying no blog e super aceitei o convite, pois esse é um assunto muito sério e triste, sei que muitas pessoas sofrem ou já sofreram com isso, e falar sobre isso vai me fazer bem e espero poder ajudar outras pessoas também.

Bom tudo começou quando eu estava no infantil I, eu era a única criança negra na sala, meus pais sempre trabalharam muito e quiseram proporcionar um ensino de qualidade pra mim e minha irmã, mas em escolas particulares a porcentagem de alunos negros é muito pequena, ou seja, eu era um E.T. dentro da sala de aula, não tinha muitos amigos, algumas meninas às vezes conversavam comigo, mas era nítido que sentiam pena de mim. Naquela época esse assunto não estava tão em evidência como hoje, e as professoras não sabiam lidar com a situação e por diversas vezes eram relapsas ou então eram super protetoras comigo, o que piorava ainda mais a situação, mas eu fui abençoada com uma irmã maravilhosa e briguenta (rs), que sempre me defendeu e protegeu, mesmo ela sendo a irmã mais nova.

Por diversas vezes eu quis faltar da aula, chorei escondida no banheiro da escola, rezei muito para virar uma menina loirinha de cabelo liso e olhos azuis, pois assim eu não teria que enfrentar tantos problemas e nem ser uma crinaça cheia de conflitos; falava com os meus pais, mas eles sempre diziam que eu não podia deixar que as pessoas me humilhassem, e enfrentar a situação de cabeça erguida, porque não era pecado algum eu ser negra, mas eu era uma criança inocente e indefesa, não sabia o que fazer diante dessa situação e sempre me calava diante das ofensas dos meus colegas de classe.

Com o passar dos anos isso só piorou e eu me tornei uma criança que sofria de problemas de baixa auto-estima e meu rendimento escolar só caía, eu queria ser invisível e não precisar ir à escola, sempre que dava eu inventava alguma doença para faltar a aula. Eu sentia ódio de todas aquelas pessoas da minha sala, não me sentia a vontade perto deles, toda vez que tinha que ler um texto em voz alta, eu queria morrer, porque todas as atenções se voltavam pra mim, parecia que eles estavam atentos esperando algum erro meu só para me zoarem, além do que eles se dirigiam a mim como negrinha e nunca pelo meu nome.

Fui excluída de várias festinhas e passeios, eles diziam que as meninas feias e pretas não eram bem-vindas nas festas deles, e eles sentiam vergonha de ir a qualquer lugar ao lado de alguém como eu; eles eram bem cruéis comigo, aliás toda criança é, mas porque dentro de casa eles aprendem que negro é indolente e não merece respeito algum, só que os adultos fingem não ter preconceito, mas crianças são puras e sinceras, não mentem como os adultos, por um lado eu entendo que aquelas crianças não faziam aquilo por maldade, tudo o que saía da boca deles e as atitudes que eles tinham eram uma reprodução do que os pais diziam e ensinavam.

Eu lembro que uma vez na sala de aula caiu o lápis de um colega meu de classe no chão e eu peguei para ele, porque o lápis tinha caído no meu pé, na hora ele disse pra eu deixar o lápis onde tava, porque senão eu ia sujar o lápis dele, porque o pai dele disse que pessoas da minha cor eram porcas e sujas, e logo em seguida pediu para um menino branco pegar o lápis para ele, eu fiquei sem reação e morrendo de vontade de chorar, nunca fui tão humilhada em toda minha vida como nesse dia, mas às vezes eu encontro esse menino nos lugares e cumprimento, trato bem, porque não vale a pena guardar rancor, isso é atraso de vida e faz muito mal para o coração e a alma!

Com o passar dos anos eu mudei de escola duas vezes e todas particulares, ou seja, eu era a única negra na sala, mas as coisas mudaram, pois eu não estava mais convivendo com crianças que são super sinceras, eram adolescentes que já sabiam disfarçar certas coisas, mas fiz muitas amizades, conheci pessoas maravilhosas que estão no meu círculo de amizades até hoje e por incrível que pareça a maior parte dos meus amigos são brancos, mas nunca senti diferença da parte deles e a família de todos sempre me trataram muito bem.

[talita entre as primas mariana [e] e carolina]

Não posso dizer que superei essa fase da minha vida, eu sou um pessoa muito tímida, sempre me sinto inferior às outras pessoas, sofro muito com problemas de baixa auto-estima e tenho consciência de que eu preciso fazer terapia para resolver esses problemas que me aterrorizam até hoje.

Eu estudo Tecnologia em Produção Têxtil e sempre gostei muito de moda, e Alexandre Herchcovitch é meu ídolo! Admiro muito o trabalho dele e uma vez estava assistindo a uma entrevista dele e me lembro até hoje que ele disse que gosta muito de caveiras porque essa é a maior prova de que todos somos iguais e eu tento fazer disso um lema para viver de bem com a vida! Essa é a minha dica para quem sofre ou sofreu bullying! Somos “diferentes” porém somos iguais!

Beijo grande para Miki e todas as suas seguidoras!!

Talita Pires Berribilli

[talita e seu priminho matheus, também vítima de bullying]


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11 Respostas to “eu compartilho: a história de talita berribilli”

  1. Dona Estrelinha novembro 20, 2010 às 10:37 am #

    Talita e Miki, que texto mais lindo e sensível. Que bom ouvir essas coisas assim, de forma clara e sincera.
    Eu ando pensando muito sobre esse racismo escondido do Brasil, esse racismo, às vezes, até mais forte que se conta por aí na terra do carnaval.
    Sabe, Talita, um dos meus colegas mais queridos do trabalho é negro e ele é a flor de alegria do andar: inteligente, gentil, engraçado, competente, descolado, gente fina pra valer. Um dia estavamos voltando juntos do trabalho (às vezes, ele me dá carona hehe) e ele contou uma história bem parecida com a sua, de ter estudado em colégios particulares a vida toda e ter sido o único negro da sala. Eu fiquei emocionada com o jeito dele contar aquilo tudo, seus sonhos, medos, e como ele fazia a vida diferente.
    Obrigada por contar isso aqui e Miki, obrigada por publicar.
    Sensibilidade, amor, criatividade e capacidade de seguir em frente. Somos feitos de que, afinal?
    Com muito carinho, sempre, Pat

  2. Talita Berribilli dezembro 10, 2010 às 12:50 pm #

    Pat fico muito feliz por ter gostado do texto!!!
    Muito obrigada pelos elogios!!!

    beijosss

  3. Luis Guilherme Block Berribili dezembro 11, 2010 às 12:24 pm #

    Belo texto!!! Por isso me orgulho de vc…Enfrentou e enfrenta até hj td isso com valentia e cabeça erguida..por isso vc é especial..Hj em dia virou moda falar em bullying, mas isso ocore há anos e sempre ocorreu, comigo num foi diferente, mas a gente encara e leva a vida em frente!!!! Deus num poderia me dar um presente maior do que vc e sua irmã…Eu só tenho a agradecer e dizer…continue assim uma lutadora e por q não dizer uma VENCEDORA11…BJOS…

  4. menina miki dezembro 13, 2010 às 5:39 pm #

    estrelinha, merci pelo comment tão lindo, as usual.
    pede pro seu jorge participar do ‘eu compartilho’? fiquei curiosa em saber a história dele.
    se vc tiver vergonha, eu posso pedir – hehe

    teamo, m.

    talita, merci por abrir um capítulo tão doloroso da sua vida conosco. tenho certeza de que, todos juntos, podemos fazer um mundo melhor.

    bjs, miki

  5. Laura Miriam dezembro 15, 2010 às 8:08 am #

    olá Talita, achei por acaso esse blog e decidi ler a postagem.Imagino como deve ter sofrido, também já fui vitima de bullying, só que eu não sou negra, eu sou evangélica.Muitos não sabem, mas muita gente sofre por causa de sua religião, quando era adolescente sofri muito por me vestir diferente das outras meninas, por não querer me misturar em certas coisas que não me convinham, tiravam sarro de mim pq tinha um cabelão gigante. Chorei muito, porém nunca deixei que isso abalasse a minha fé em Cristo, fico feliz por vc ter dado a volta por cima, e nunca deixe que digam que vc não é capaz, vc é uma negra linda e merece toda felicidade do mundo e melhor ainda Jesus nos ama do jeito que somos, sem diferenças!!!bjinhos fiquem com Deus!

  6. menina miki dezembro 15, 2010 às 10:24 am #

    olá, laura miriam!

    sou a miki, autora e ilustradora do livro “vestida para espantar gente na rua” e esse blog é parte integrante deste meu projeto.

    tb fui vítima de bullying quando pequena por ser a única japonesa da escola. entendo como vc deve ter se sentido!

    tenho um convite a fazer: vc gostaria de compartilhar a sua história com as outras pessoas aqui no blog?

    escreva pra mim: euespantogentenarua@gmail.com

    abraços, miki

  7. Marco Antonio dezembro 15, 2010 às 11:21 am #

    Boa tarde Miki!!
    Excelente esta história e muito importante esta compartilhando;pois só assim as pessoas começam a analisar melhor as coisas!
    Parabéns!
    @cotonho72

  8. menina miki dezembro 15, 2010 às 6:47 pm #

    benvindo, marco antonio!

    que bom que gostou da nova seção do blog :)
    em breve, teremos mais um depoimento!

    abraços, m.

  9. Talita Berribilli dezembro 20, 2010 às 11:36 am #

    Olá Laura!!!
    Infelizmente algumas pessoas não respeitam nem a religião do próximo…é uma vergonha!!!mas tenho ctz q Deus te deu forças pra enfrentar essa situação de cabeça erguida e fico feliz por ter se identificado c a minha história e ter falado um pouco da sua, porque eu acredito que muitas pessoas sofrem com isso também…
    E Miki pra mim sempre será um prazer poder te ajudar nessa causa importante!!!Vc é uma querida!!!
    Agradeço a todos pelos comments….estou muito feliz com a repercusão disso tudo!!!
    Desejo sucesso pra essa nova sessão do blog que parece ter começado com o pé direito!!!
    Parabéns pela iniciativa Miki e muito obrigada pela oportunidade!!!

    beijãoo

  10. Talita Berribilli janeiro 9, 2011 às 8:08 pm #

    Na revista Claudia desse mês tem uma matéria muito interessante sobre bullying…vale a pena conferir!!!
    “Meu filho pratica bullying” Revista Claudia, janeiro/2011

  11. menina miki janeiro 10, 2011 às 12:16 pm #

    talita, que bacana a dica.
    procurei no site e não encontrei a reportagem… acho que só tem na edição impressa mesmo. ou quem sabe, vão postar depois.

    mas olha só que legal: descobri que a capricho tem uma campanha chamada ‘diga não ao bullying’ que achei muito bacana > http://capricho.abril.com.br/blogs/diganaoaobullying/

    vc chegou a ler a matéria da claudia?

    bjs!

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